30 de janeiro de 2013

COMBATENTES... MORTOS E ABANDONADOS

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 É URGENTE RESGATAR...

... o que resta dos nossos camaradas mortos e abandonados nas terras ultramarinas. Para reflexão e cuidado dos que ainda sentem uma réstia de patriotismo e vontade de restaurar a dignidade dos Combatentes:
 
Porque ficaram para trás?


  COMBATENTES MORTOS E ABANDONADOS
       Quando os poderes instalados nos diversos patamares da governação do país fingem desconhecer o sofrimento das centenas de milhar de traumatizados pelos efeitos dos dramas vividos na guerra colonial, é tempo dos Combatentes mostrarem a sua indignação e protestarem activamente. Estamos fartos de pantominas nas coisas sérias.
 
Nas matas de Guilege
 
       São cada vez mais evidentes as acções políticas no sentido de amordaçar e desprestigiar os cidadãos portugueses, reduzindo-os a simples máquinas de trabalho ao serviço dos interesses malignos da globalização. Tudo isso põe em causa os valores patrióticos pelos quais os Combatentes deram o melhor da sua juventude ao serviço da Pátria; como vão perdendo o medo de recordarem o negrume de muitos dias de carências de toda a ordem, já se afoitam a atirar algumas pedras contra o charco da ingratidão a que foram votados. Integrados na sociedade pós-descolonização e, apesar dos seus dramas pessoais, trabalhando na qualidade de assalariados, empresários ou emigrantes, fizeram-no com o sentido de contribuir para um Portugal melhor. Agora, é tempo de combater todas as injustiças que os atingem só por causa de terem sido “os melhores homens da Pátria”, em determinado período da história contemporânea.
 
Esquecidos...
 
       Estamos certos de que alguns elementos da sociedade que nos acusaram de todos os males que a descolonização lhes tenha causado são os mesmos “colonos bacocos” que nos hostilizaram enquanto combatentes, ignorando a força dos “ventos da história” que mudou as relações entre os povos. Até já lançaram a atoarda de que a questão do regresso dos mortos divide os combatentes vivos; os que aceitam que os restos mortais dos nossos companheiros continuem em terras “estrangeiras” devem fazer parte do lote dos cobardes, desertores e traidores à pátria ou ignoram que a dignidade duma Nação está na forma como trata os seus mortos em combate.  
 
desolação... pela nação!  


      Mas, a razão suprema da nossa indignação é saber que os dirigentes da Liga dos Combatentes, à semelhança dos governantes, continuam a tratar os combatentes mortos e abandonados, em cemitérios provisórios e campas degradadas, como os restos mortais dos seres mais reles e indignos da nação. A missão empreendida, por um grupo de “antigos combatentes” e a União Portuguesa de Pára-quedistas, para trazer de volta à Pátria e aos respectivos familiares os “mortos de Guidage-Guiné” trouxe ao conhecimento público a vergonhosa acção da Liga dos Combatentes. Primeiro, usou de diversos artifícios para abortar a missão, incluindo a chantagem diplomática; depois, aproveitou o dinheiro angariado por esse “grupo de combatentes e amigos” para tratar da trasladação ao seu modo: viagens e mais viagens e muita burocracia. Há dois anos que andamos com este caso e não sabemos quando os restos mortais desses combatentes chegarão à terra das suas famílias.

       Sabemos que, as centenas de milhares de Euros orçamentadas anualmente para a Liga dos Combatentes, vão sendo gastas em viagens “turísticas” às terras de África. Os Boletins da Liga dão conta de algum “trabalho” em prol dos cemitérios… Mas os testemunhos dos combatentes que tiveram condições para visitar “as terras onde perderam muitos dos sonhos da sua juventude” demonstram o inequívoco abandono e total degradação dos locais onde ficaram “os nossos companheiros mortos”. “A LIGA NÃO ESQUECE!”, mas gasta o dinheiro sem resultados.

 

       Esses senhores não estão interessados em dignificar os Combatentes, e muito menos trazer de volta os que “ficaram para trás”. A sua filosofia dava para rir, se não fosse tratar de causas muito sérias. A ideia manifestada por um senhor General, dirigente da Liga dos Combatentes, sobre o “turismo da memória” é mais uma afronta aos que lutaram e morreram ao serviço da Pátria e um escárnio à dor das famílias que os perderam. Os poucos que têm condições económicas para visitar as terras onde combateram não vão lá em “turismo de memórias” mas para acertar algumas contas com um passado que deixou marcas psíquicas profundas. Só que, ao verem o abandono a que foram votados os seus companheiros mortos, sentem um arrepio de revolta contra tal situação.
 
 
 
       Outra ideia desajustada e infeliz é a de que devem ser exumados os restos mortais e transportados para cemitérios centrais; ou seja, ficam sempre em “território estrangeiro”. A ignorância das realidades da guerra colonial – guerra de guerrilha – está na cabeça dos que afirmam que se deve “honrar os mortos enterrando-nos no campo de batalha”. É utópico pensar-se que a África é a Europa e que o espaço onde se desenrolaram as batalhas das “guerras mundiais” se pode comparar à selva, matas e savanas onde aconteceram as escaramuças (emboscadas, flagelações de fogo, rebentamento de minas e outras formas de combate). Essa realidade está nos cemitérios centrais, como Luanda e Maputo (Lourenço Marques), completamente vandalizados e destruídos. Quando sabemos que as lápides das campas dos “nossos combatentes” são vendidas como troféus no “mercado do Roque Santeiro” de Luanda e que as sessões de “magia negra” são realizadas no que resta desses locais sagrados, só podemos manifestar a nossa repulsa pela política e regras que são o mais retrógrado no tratamento do repatriamento dos mortos que ficaram abandonados. É ponto de honra para uma Nação civilizada entregar os mortos em combate às suas famílias; quem negar isso, está a usurpar um sagrado direito de sangue.
 
 
Companheiros, o desgaste das nossas vidas é um factor com o qual os responsáveis da governação contam para que tudo continue como está – abandonado. Só que não percebem que ainda temos forças para mostrarmos porque “fomos os melhores homens da Pátria”. Não podemos continuar a ser enganados, vejam o que diz a Liga dos Combatentes quanto a objectivos: no que respeita a África, está tudo em lastimável abandono e degradação.
 
destruição... vergonhoso abandono
 
Numa deslocação a terras africanas, alguns membros do “Movimento Cívico de Antigos Combatentes”, tiveram o cuidado de falar com as autoridades locais, civis e militares, onde estão cemitérios de combatentes abandonados – todos eles estranham que ainda não se tenha feito a trasladação dos restos mortais dos “nossos mortos” para Portugal. É coisa que eles já fizeram com combatentes de outros países. Mostram-se colaborantes no trabalho de exumar esses restos mortais, incluindo a logística para o embarque com destino a Portugal. Por outro lado, essas autoridades estão a ser pressionadas pelas populações para tomarem posse das terras onde estão as campas dos soldados portugueses. Os responsáveis da Liga nem sequer têm em conta as diferenças culturais sobre a veneração dos mortos.
Com membros da Associação de Combatentes de Moçambioque
 
Cte dos Comandos de Moçambique
SOLUÇÕES:

É tempo de unir os combatentes para acabar, de uma vez por todas, com a ineficácia das acções da Liga dos Combatentes, exigindo aos governantes que o dinheiro das dotações orçamentadas seja gasto no tratamento sério do problema dos que “ficaram para trás”. Sem preciosismos inadequados para as pesquisas forenses, poder-se-á resolver a questão de duas maneiras:
1 – Exumar e entregar às respectivas famílias os restos mortais que estão em campas identificadas – há muitas campas com os nomes escritos e existem croquis arquivados.
2 – Depositar em campa comum, junto ao Monumento aos Combatentes-Belém, os que não têm qualquer identificação nem constem nos croquis arquivados.
Entretanto, se alguma família fizer questão dos exames de ADN, serão tratados caso a caso e às suas custas.
Se continuamos neste engano do “faz de conta”, além de prolongarmos a dor que abala os familiares e os companheiros de jornada, estamos a pactuar com uma vergonhosa acção de esquecimento das nossas memórias. Os actuais dirigentes da Associação dos Veteranos de Guerra já deram provas do seu empenho e seriedade com que tratam este e outros problemas que afectam o bem-estar dos combatentes. Com o empenho de todos, mantemos a esperança de que Portugal será o local de repouso dos que se bateram e morreram nas guerras ultramarinas.
 
cemitério descapinado em 2005 
 
sinais do abandono
Por:
Joaquim Coelho, combatente em Angola, por obrigação... em Moçambique, por imposição.
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